Paróquia Nossa Senhora Aparecida
Literatura e Espiritualidade
 
06.Abr - Vida, Dignidade e Humanidade.
Vida, Dignidade e Humanidade.

VIDA, DIGNIDADE E HUMANIDADE: o rompimento com o indiferentismo.


Neste período da Páscoa, a maior e mais antiga festa do Cristianismo, o mundo celebra a ressurreição de Jesus Cristo. No sentido literal, a palavra ‘ressurreição’ significa ressurgir; erguer ou levantar. Diante do cenário atual em que o mundo vive após a pandemia do novo coronavírus, a mensagem carregada pela história da cruz pode trazer um novo significado para a humanidade. 


É a coluna Literatura  e Espiritualidade estreia com um poema de uma grande escritora brasileira, nascida em terras mineiras, precisamente em Sacramento – MG, cuja obra foi esquecida ao longo do século XX no Brasil.  Essa mineira-brasileira é Carolina Maria de Jesus.


Por meio deste poema, poderemos refletir sobre o sentido de humanidade tão escasso nas vivências entre nós.


Humanidade
Depôis de conhecer a humanidade
suas perversidades
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguem pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrivel, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As pesimas qualidades


Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoista interesseiros
Mas trata com cortêzia
Mas tudo é ipocresia
São rudes, e trapaceiros



                                                                        Carolina Maria de Jesus, em “Meu estranho diário”. São Paulo:         Xamã, 1996. (grafia original)


Pela etimologia, ou seja, a origem da palavra, HUMANIDADE se deriva do latim "humanitas,atis", com o sentido de condição da essência do ser humano. Disponível em: https://www.dicio.com.br/humanidade/ . Acesso em 02/04/2021


Do ponto de vista filosófico, Humanidade pode ser definida como um conjunto de características comuns a todos os homens, inclusive a vida, a animalidade etc., também como um conjunto de características que constituem a diferença específica da espécie humana com relação às espécies vizinhas, um conjunto dos homens, considerado algumas vezes, como constituindo um ser coletivo. E além dessas definições, a palavra pode ser entendida como   piedade, simpatia espontânea do homem pelos semelhantes. E, por oposição quer ao racismo, quer às doutrinas totalitárias, a doutrina que faz da humanidade (do caráter humano, completamente realizado) o fim moral e político por excelência. (Disponível em  https://sites.google.com/view/sbgdicionariodefilosofia/humanidade . Acesso em 02/04/2021)


Para que se possa entender a razão do poema Humanidades de Carolina Maria de Jesus faz-se necessário, previamente, conhecer um pouco da vida dessa autora.


A história de Carolina é atravessada, manchada e massacrada pelo preconceito que permeou toda sua existência. Negra, catadora de papel e favelada, Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 em Sacramento, Minas Gerais, em uma comunidade rural. Carolina era filha de pais analfabetos. Na infância, foi muito maltratada, ainda assim aos sete anos conseguiu frequentar a escola e em pouco tempo, aprendeu a ler, escrever e desenvolveu o gosto pela leitura.


Em 1937, após a morte da mãe, mudou-se para São Paulo. Aos 33 anos, desempregada e grávida, foi morar na favela do Canindé, zona norte da capital paulista. Para sua sobrevivência, trabalhava como catadora de papel e, nas horas vagas, relatava o cotidiano da favela em cadernos que encontrava no material que recolhia.


Um destes cadernos deu origem a seu primeiro livro, Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada, publicado em 1960. A obra tornou-se um sucesso, chegou a ser vendida em 40 países e traduzida para 16 idiomas.


Após a publicação e o sucesso desse primeiro livro, Carolina se mudou para Santana, bairro de classe média da capital. Três anos depois, publicou o romance Pedaços de Fome e o livro Provérbios. Em 1969, saiu de Santana para Parelheiros, no extremo da zona sul da cidade, uma região de grandes contrastes entre ricos e pobres, mas com ares de interior que lembravam a cidade onde cresceu.


A escritora nunca quis casar, teve três filhos, cada um de um relacionamento diferente. Morreu em fevereiro de 1977, aos 62 anos, de insuficiência respiratória. Outras seis obras póstumas foram publicadas após sua morte, compiladas a partir dos cadernos e materiais deixados pela autora. Em 2017, sua história foi registrada por Tom Farias em Carolina - Uma Biografia, publicada pela editora Malê.


Retornando ao poema HUMANIDADES de Carolina Maria de Jesus, podemos observar que em seus versos, suas memórias se avizinham de sentimentos de rancores e de ressentimentos. São versos que tocam em temas como o ódio, a morte, o preconceito, o racismo, as hostilidades, o não lugar dos excluídos e as identidades recalcadas.


Carolina considera-se excluída da sociedade pelo fato de ser negra, nesse sentimento embute-se a dor dos seus ancestrais, memória de uma época em que o negro sofria com a escravidão e com a opressão.


Nos diários de Carolina Maria de Jesus têm-se o testemunho de uma personagem que não é apenas o dela, mas de várias outras pessoas que viveram (ou vivem) o mesmo sofrimento ou descaso. Dessa forma, a memória de Carolina de Jesus registrada em Meu estranho diário, onde consta o poema HUMANIDADES, marca a sociedade da época. Também, no tecer da memória de Carolina deixa-se transparecer a “memória do ressentimento”.


Carolina de Jesus, tendo o contexto histórico-geográfico como a paisagem real, a favela, olha para si, e também para os outros que consigo interagem: os favelados, os políticos, os brancos. Nesse contexto, a escritora se insere à comunidade favelada para além da situação espacial. Carolina vive a essência de ser da favela, ela é o próprio local de fala, vendo-se personagem de si mesma, tornando-se voz da intimidade ressentida e porta-voz da coletividade. A humanidade vivida na essência por Carolina de Jesus mostra que a vida não tem nada de belo, é dura como o pão que eles têm de comer, negra como sua pele e como o feijão que obtêm com dificuldade.


Com o dinheiro das vendas do livro Quarto de Despejo: diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus compra uma casa de alvenaria, à Rua Benta Pereira, 562, Alto de Santana, zona norte de São Paulo. E continua a escrever seus diários, tendo como motor o ressentimento. Na casa de alvenaria, mostra uma outra compreensão do mundo e da humanidade: sonhava em um mundo ideal, em uma humanidade “humana”, agora, decepciona-se.


Carolina, nesta fase, convive com escritores, editores, repórteres, escritores e pessoas da alta sociedade, mas, também, não se sente bem nesse novo meio. Ela relata tudo em seus poemas, inclusive as repercussões negativas, muitos desses poemas fazem parte de seu diário.   “porque é que eu não fiquei lá no mato plantando lavoura” (p. 153). O “eu” “lírico” da memória ressentida de Carolina é saudosa pelo tempo em que vivia no interior de Minas Gerais, antes de vir para São Paulo em busca de uma vida melhor. Irritada pelas perversidades dos homens, desabafa: “Depois de conhecer a humanidade/ suas perversidades/ suas ambições/ Eu fui envelhecendo/ E perdendo/ as ilusões/ o que predomina é a maldade/ porque a bondade: Ninguém pratica” (p. 138). Seus versos figuram como denúncias da humanidade, do comportamento humano: “é horrível, suportar a humanidade/ Quem tem aparência nobre/ Que encobre/ As péssimas qualidades” (p. 138). Os poemas desta segunda fase do diário de Carolina seria o suficiente para se chegar à conclusão do seu descontentamento com essa nova fase da vida, como confirmam os versos a seguir: “Na campa silente e fria/ Hei de repousar um dia.../ Não levo nenhuma ilusão/ porque a escritora favelada/ Foi rosa despetalada” (p. 151).


Carolina teve a chance de ser conhecida, ouvida, de erguer-se, de conquistar sua casa de alvenaria. Porém, o “eu” lírico se vê, de repente, em um outro mundo (o mundo dos brancos e dos ricos), que segundo ela talvez fosse melhor não ter conhecido. Pois, agora, além de triste, está cansada e sem grandes perspectivas, sem grandes sonhos a seguir. O que se constata no decorrer da vida da autora é que nem o reconhecimento, nem a fama fez com que ela deixasse de ter os seus enfrentamentos como mulher negra e seus conflitos existenciais. Carolina é uma mulher de fronteiras. Relata em seus escritos um mundo que não lhe pertence, por outro lado, também, maldiz o sonhado sucesso. A sensação é de que ela está em um espaço que não a quer e que ela também rejeita: “Cheguei à conclusão, que se um pobre fica rico, a alma continua pobre”. Esse conflito está contido no discurso, característico dos povos “oprimidos”, e se desenvolveu nos seus escritos a “memória do ressentimento”


Atualizando os versos do poema HUMANIDADES de Carolina Maria de Jesus para a contemporaneidade, podemos constatar o esvaziamento de sentido e de significação da palavra humanidade. O desabafo poético de Carolina Maria de Jesus é o mesmo de uma legião de seres humanos que vivem à margem da sociedade, em pleno século XXI, destituídos de respeito, de política sociais de inclusão, de amor e de compaixão. Humanidade não pode ser aparente, travestida de nobreza, deve ser vivência transformada em ação, é humanidade para com os outros.


Que a mensagem da Páscoa possa ressurgir nos HUMANOS um novo significado de HUMANIDADE, de modo que possamos romper com as indiferenças que tolhem as boas ações, a acolhida e chegam, às vezes, a ceifar vidas! 


 


Referências Bibliográficas:


https://www.dicio.com.br/humanidade/https://www.dicio.com.br/humanidade/


https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2019/03/quem-foi-carolina-maria-de-jesus-que-completaria-105-anos-em-marco.html


ttps://www.revistaprosaversoearte.com/carolina-maria-de-jesus-poemas/


https://sites.google.com/view/sbgdicionariodefilosofia/humanidade


 


https://www.uninassau.edu.br/noticias/ressurreicao-de-jesus-o-marco-cristao


 


 


Indique a um amigo
 

Copyright © 2021 Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Todos os direitos reservados.